quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

JOGANDO


Jogando
Pintura -óleo sobre tela
55x70 cm 

Ando pulando feito um cavalo nesse xadrez de vida.

Com a impressão que salto por cima dos outros a cada movimento meu,
nunca estou na frente, nunca alcanço promoção.

... E nem que eu fosse o peão.

Chego lá no final e não sou coroado,
e alguém do meu lado diz que não era o final,
e eu, o peão,
não tenho mais como seguir em frente, nem como voltar...

Nessa hora nem um cavalo,
como o que eu também sou,
pode me ajudar...

Vou ao chão, a pedir perdão,
como um rei derrubado,
e esse tabuleiro de mundo me vem sempre com um maldito bispo
pra quem eu tenho que me humilhar,
eu,
que bispo incontáveis vezes sou eu próprio,
me atravessando em diagonal enquanto todos andam certo.

Às vezes eu queria ser rei apenas para rocar
e dormir,
deixar um pouco de existir,
protegido atrás da torre,
esta que tantas vezes eu sou também,
andando reto enquanto todos parecem ser bispo.

Mas de que me adianta ser rei?

Se ao meu lado terei a rainha,
esta que sempre vai mais longe do que todos,
e quando não se perde não volta...


Ser rei significa ser o único que pode sofrer o xeque-mate.



                                  

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

PAISAGEM

                                                         
                                                                                      “CAMINHO DE INFÂNCIA”
Em São João da Reserva-São Lourenço do Sul
70 X 80
Nos meus 10, 11, 12 anos, por aí, íamos todos,  a mãe e cinco filhos passar uns dias na casa da Tia Lídia na Reserva, um lugar perto de casa. Íamos de ônibus, descíamos numa esquina, a uns metros deste lugar, e dali , só a pé...e passávamos por aqui...
 Aqui, embaixo era uma sanga, é ainda, este lugar existe, muita gente deve conhecer...


Ficávamos dias lá! Nunca notei nenhuma cara de descontentamento da Tia! Se fosse hoje em dia, uma cunhada  e uma ninhada, acho que apareceria uma expressão de desagrado, uma recusa...Naqueles  tempos era só alegria, histórias, causos, muitas  camas num quarto grande e muitos travesseiros de pena.  A mesa do café da manhã  tinha bolachas com uns enfeites coloridos, e prateados... Grandes galpões cheios de sacos e sacos de amendoins e outros com cebolas em réstias bonitas, bem douradas... caminhadas até uma sanga muito longe  através de  campos e vacas e cavalos!!! Naqueles campos eu pensava que um dia voltaria e levaria a pessoa que seria o amor da minha vida. E voltei mesmo, anos mais tarde, mas notei que, esses lugares de infância, esses pensamentos e amores que  idealizamos nesta época, ficam lá, até hoje, num  pressentir e “sentir”  que nunca são inteiramente realidade... São só um jeito de imaginar!!!


Hoje refiz essa postagem porque achei esse texto abaixo, que tem tudo a ver com o meu. 


SAUDADE…
Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre… Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite….
Que saudade do compadre e da comadre!
José Antônio Oliveira de Resende.


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